segunda-feira, 4 de janeiro de 2010


Corria o ano de 1939. Nossas tropas (alemãs) ocupavam uma cidadezinha não longe de Varsóvia. Extenuados após cansativa marcha forçada, nós nos instalamos numa casa burguesa. Tudo o que queríamos era dormir, apesar dos insistentes sibilos das balas e explosões das bombas estrondeando, por todos os lados, e cada vez mais frequentes e violentos...

De repente, um estalido medonho, o teto desaba... Uma explosão... Estilhaços de obuses... Uma terrível nuvem de poeira... Bloqueado, preso entre uma viga e cadeiras quebradas, lado a lado com alguns companheiros mortos, consegui me libertar e recuperar o ar...

A casa inteira transformara-se em escombros. Apenas um lanço de parede estava de pé, fixo, intacto. Tratava-se de um Ícone, a imagem da Mãe de Deus tão venerada pelos católicos. Tinha nas mãos um terço, e me olhava com ternura...

Eu sou protestante, e fui educado quase sem religião... Durante a expedição militar, notei que a maior parte de meus companheiros católicos tinham uma imagem da Virgem Maria ou um terço nas mãos, que desfiavam confiantes, nos momentos difíceis. Eu estava a observar a imagem quando uma segunda bomba ia se anunciando. Instintivamente, precipitei-me para aquele lanço que sobrara das paredes, arranquei o Ícone que lá estava e apertei-o junto ao meu coração. A bomba explodiu fragorosamente e seus estilhaços mataram três companheiros meus.

Quando recobrei os sentidos, ainda tinha a imagem em minhas mãos. Eu não tinha coragem de me desfazer dela. Levei-a para casa como lembrança da maravilhosa proteção que recebera. Com amor, coloquei o meu tesouro no bolso interno do dólmã.

Naquela noite, retomamos a investida. Metralhadoras e armas automáticas semeavam a morte em nossas fileiras. Num curto momento de acalmia, tateei, sobre meu peito, o ícone que estava coberto de grossa camada de cobre. Para meu espanto, descobri nele uma bala incrustada, que teria trespassado meu coração, se não tivesse atingido o Ícone. Emocionado até as lágrimas, e cheio de reconhecimento, recoloquei minha querida Madonna sobre o coração.

Isto se passou há muitos anos. Mas jamais esquecerei como o Ícone da Mãe de Deus salvou a minha vida. Contei esta história para minha mulher e meus filhos. Todos veneram com muito amor aquela que trouxe um pai e esposo, são e salvo, de volta à sua família.

Hoje, esta imagem está num nicho, num lugar de honra, ornada de flores e velas acesas e, a cada dia, nós nos reunimos em volta dela e, juntos, fazemos nossas orações. "Por que suprimimos em nossa religião a devoção a Maria, Mãe de Jesus?"

Saarbrucken, 22 de novembro de 1948 (segundo A. Dewald).
Relatado e traduzido por Frei Albert Plfeger, marista, em seu Florilégio Mariano, 1980

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