sábado, 10 de novembro de 2012

QUE TODOS TENHAM VIDA Pe. Gilberto Kasper pe.kasper@gmail.com Mestre em Teologia Moral, Especialista em Bioética, Ética e Cidadania, Professor Universitário, Assistente Eclesiástico do Centro do Professorado Católico, Reitor da Igreja Santo Antônio, Pão dos Pobres da Arquidiocese de Ribeirão Preto e Jornalista. Quem observa o número de farmácias – chamadas, com propriedade, também de drogarias – em nossas cidades, fica com a impressão de que nossa população está gravemente doente. Quando se faz uma pesquisa sobre os remédios que cada um toma, fica-se assustado. As famílias costumam ter um verdadeiro arsenal deles em casa. Tornam-se dependentes. Quando verificamos as filas junto aos postos de saúde e o sofrimento que se retrata nos rostos dos que buscam algum recurso, ficamos ainda mais abalados. Além da impressão de que nossa população está doente, constatamos que o tratamento que se lhe oferece não é adequado. Criamos uma estrutura que torna inviável o tratamento da saúde de nossos cidadãos. Devemos então concluir que assistimos ao alastrar-se de uma peste. Parece-se ao tormento de Dândalo, que morre de fome e sede dentro da água, amarrado ao sopé de uma árvore carregada de frutos. A medicina indubitavelmente progrediu. Está em condições de resolver muitos problemas de saúde. Faz maravilhas. Podemos anunciar os tempos messiânicos, quando cegos começam a enxergar com o transplante de córneas, paralíticos andam com a implantação de próteses, leprosos são curados... E o incrível acontece quando até corações são transplantados e mortos são reanimados. Mas é preciso reconhecer que a medicina se elitizou. Nem todos têm acesso a ela. Gastam-se enormes fortunas que, na prática, favorecem alguns poucos, em detrimento das multidões de pobres, que formam nossas filas de enfermos, sem atendimento ou com atendimento precário. Pelo fato de se querer o ótimo – para o que não existe estrutura suficiente – omite-se fazer o que seria possível e bom. Por isso, vale o provérbio que o ótimo é inimigo do bom. Em vez de simplificar todo o esquema, de modo a atingir a todos, investe-se em instrumentos extremamente sofisticados, que servirão para bem pouca gente. É preciso democratizar a medicina! A questão das farmácias e das filas para o atendimento é apenas um sintoma. Há algo de errado, tanto na mentalidade acerca da saúde como na organização de seu serviço. Talvez tenhamos subido muito alto, colocando-nos a par do que existe de mais moderno e avançado e tenhamos esquecido as práticas elementares, capazes de proporcionar saúde melhor. O assunto exige uma revisão, para reintegrar os valores da saúde no grande contexto do bem comum. E, assim, chegaremos mais perto da máxima do Evangelho: “que todos tenham vida e a tenham em abundância!” (Jo 10,10).

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