terça-feira, 12 de março de 2013

Pe. Gilberto Kasper* A assembleia não é uma simples coletividade de indivíduos. É uma comunidade de pessoas. Daí uma nova antinomia: cada qual deve realizar sua vocação mais pessoal fazendo seu o comportamento de um grupo celebrante. Há uma contínua tensão entre o indivíduo que vem à assembleia e a ação simbólica que lhe é proposta na liturgia. Só pelo fato de ser crente, não se torna ele imediatamente concorde com a celebração. Essa tensão tem dois aspectos. Um de seus termos refere-se à própria realidade da ação proposta: deixar-se julgar e converter (Metánoia) pela palavra; morrer e ressuscitar com Cristo; comungar com Deus e seus irmãos; em suma “revestir o homem novo criado segundo Deus na justiça e santidade” (Ef 4,24). Atingir a plenitude do ser cristão exige uma luta, uma libertação progressiva do velho homem, uma passagem à vida em Cristo. Outro aspecto refere-se aos sinais nos quais, no Tempo Pascal, esse mistério é proposto: uma linguagem parcialmente desconhecida, por vezes, em seu significado (por exemplo, textos bíblicos), mas, sobretudo em sua significância (sentido novo para a fé, proposto pela “Porta Fidei no Ano da Fé); pessoas com quem celebro que não escolhi e que não são todas, conhecidas; gestos sacramentais “transmitidos”, que não criei e cuja amplitude me escapa sempre em parte; textos e cantos com os quais me devo exprimir. A pastoral litúrgica deve constantemente evitar um duplo obstáculo. De um lado, a celebração tirânica, na qual os indivíduos são levados a desempenhar um papel na aparência muito comunitário (cantos e gestos uniformes, fervor excessivo), mas que absorve o indivíduo no grupo e não favorece a liberdade profunda das pessoas. De outro lado, a celebração hierarquizada e convencional, em que cada um assiste sem se engajar, refugiando-se numa piedade pseudopessoal. Na realidade, pessoa e comunidade requerem-se reciprocamente. A Aliança e o Tempo Pascal supõem um povo de crentes que se engajam livremente. *pe.kasper@gmail.com Mestre em Teologia Moral, Especialista em Bioética, Ética e Cidadania, Professor Universitário, Assistente Eclesiástico do Centro do Professorado Católico, Reitor da Igreja Santo Antônio, Pão dos Pobres da Arquidiocese de Ribeirão Preto e Jornalista.

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