quarta-feira, 3 de abril de 2013


A vitória da misericórdia

Já a doce compaixão triunfou na mente de Deus; e a paz confortadora acalmou o seio irado do Senhor. Já a concórdia afável cancelou as inimizades passadas e um amor cheio de paz afugentou as contendas da justiça.
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Já o Deus de bondade esquece as iras de outrora e no seu olhar misericordioso afaga a pobre raça humana. Reconheceu, por fim, que a semente lançada à lama só pode gerar amálgama de pó estéril, e que os sentidos, esporeados pela paixão, correm para o mal e rastejam como onda preguiçosa.
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As entranhas do pai soem compadecer-se do filho e quando este erra não o punem largo tempo com crueza. Tal é a doce piedade, que desarma o Eterno Pai, sempre que vem de envolta com o furor da justiça. Para tão longe arremessou de nós os acervos de nossos pecados e os males devidos aos crimes que cometemos quanto se afasta do alto céu a terra e dista do ocidente a região da aurora.
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Já as verdes esmeraldas adornam o sólio celestial, os palácios altaneiros rebrilham com o fulgor do jaspe. O arco-íris circunda o trono da divindade com um véu resplandescente e com suas cores variegadas orna a sede da luz.
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Já nasce para o mundo a esperança da próxima salvação, de braço dado à paz imperturbável. O céu se esposa com a terra, a altura com o abismo, e esses desponsórios serão eternos!
Um olhar sobre Nazaré
Estando Deus para mandar do céu o Filho unigênito para que se fizesse homem nas entranhas da Virgem Imaculada, cravando sobre as terras da Galilea seus olhos suavíssimos, volveu-os para os muros da ilustre Nazaré. Aí está uma habitação, pequena sim, mas levantada a tanta glória, que há de competir com o palácio dos céus.
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Contente nos poucos palmos do seu lar, habita nesta casa uma donzela, que será em breve maior qeu o firmamento. Aí ela se esconde humilde e sem nome na terra, e contudo a amplidão do espaço ainda não viu claridade maior.
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Ela guarda intactos os selos lacrados da pureza e há de gerar no augusto remanso do seu seio a Deus imenso. Cerradas as portas, guarda perpétuo silêncio quem com poucas palavras há de trazer a salvação do mundo.
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Quem, pergunto, quem és tu, mulher, para que o céu te reserve tanta grandeza? Quem é teu esposo e qual teu nome? Teu esposo é José, cuja linhagem descende diretamente do grande Davi. Ele é teu esposo, a ti unido como a verdadeira esposa; contudo, não conhece teu leito virginal: pois gravou em seu peito de diamante o voto inviolável de florir a teu lado em castidade eterna.
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O direito a teu leito virginal servirá tão somente para fazê-lo herdeiro de tua glória. Ele será chamado pai de teu Filho e gererá os passos do que governa o turbilhão dos mundos.
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Tão excelsa és tu, e assim te escondes? Teu nome glorioso Virgem Maria, há de ressoar desconhecido entre quatro paredes? Tu, a cidade santa, construída em píncaros de montes, hás de ocultar moradas tão altas como o céu? Permanecer na sombra o disco fulgurante deste róseo sol? Velar a face luminosa esta lua sem mancha?
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Furtar-se à vista, quando inflamado em chamas resplandecentes, o candelabro iluminado em meio dum palácio? Em vão, em vão te escondes, cidade altaneira, sol radiante, lua esplendorosa, chama vivaz! Se te ocultas à terra, o céu bem te conhece! Trair-te-á a luz dos astros, a luz do próprio Deus!
“Ave Maria”
Eis que das ameias celestes despede o Senhor ao mensageiro alado com o cofre dos seus segredos: “Vai, lhe diz, à arca incorruptível que encontrei depois de tantos séculos: Vai saudar a Maria! Flor de intacta virgindade, ela será a mãe de meu Filho, para a eterna salvação do mundo!” Disse Deus, e o anjo, com as rutilantes asas sorve a amplidão do espaço, como a estrela da tarde se engolfa no horizonte.
Com o rosto a irradiar nobreza e formosura, o jovem aparece sob o teto virginal do teu aposento. Extasiado pelo resplendor divino do teu espírito, cai de joelhos, pronunciando estas palavras:
“Tu, Senhora, entre as mulheres, única, contentaste ao Pai celeste; Ave! Visão primeira do supremo artista! A graça divina cumulou tua mente humilde e o amor de Deus inundou teu coração puríssimo. Está contigo o Senhor onipotente que num olhar abarca as muralhas do céu, os recantos da terra, a vastidão do mar. Senhor foi ele sempre do teu coração: ele só empunha as rédeas de tua alma. A ti não dominou a culpa original nem te prostrou outro pecado algum: o onipotente Senhor te senhoreou inteira, só ele teu amor possui eternamente, só ele desfrutou o teu amor: de teu coração só ele é o confidente. Por isso a tua glória há de jorrar por toda a vastidão da terra e os altos céus hão de curvar-se aos teus mandados. Tu és a mais bendita Mãe que um Esposo tenha dado jamais ao seu amor: a mais feliz Esposa que um Pai tenha preparado ao seu amado. As mulheres te olharão com a glória última do seu sexo, primeira do seu decoro!”
Resposta do coração
http://www.adf.org.br/home/wp-content/uploads/2013/04/1984_terco.jpgQue sentimentos te invadiram o peito, que modéstia reluzia em teu semblante, Virgem humílima, quando prostrado por terra a teus pés, o mensageiro celeste te transmitia tão admiráveis novas? Permanecias imóvel, fixos no solo os castíssimos olhos, cobertas do rubor da virgindade as faces belas.
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Perturbada por saudação tão nova tua prudência seadmira, e receosa, revolve humildemente estes problemas: “Que novas expressões me ferem os tímidos ouvidos? Que novo modo de saudar é este? Virá dos céus um tão alto cumprimento? Tanta honra a um nada, a mim tanta glória? O céu a venerar quem da própria terra é indigna?
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A mim, tão pequenina, glória tão imensa? Nesta cidadezinha apenas se conhece a esposa do carpinteiro… na cidade esplêndida de Deus, que havia eu de ser? Eu, pobre mulherzinha, cumulada de tais dádivas, de tais riquezas?
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A mim, tal opulência? Honrar-me-á o céu com a glória de rainha, quando apenas sirvo para escrava? Sofrerá o Senhor onipotente habitar em minha alma sem ornato, hospedar-se em meu seio tanto tempo? Com razão devo temer-me de louvor tão súbito, ciente de minha vileza, de minha miséria… de meu nada!”
O segredo da humildade
Ó Virgem, humilde, singela e prudentíssima, por que o temor da dúvida assim te agrilhoa? Justamente porque és humilde: e humilde tudo temes de tua ingenuidade: por demais ingênuo, o coração da jovem deixa-se enredar às vezes em diversos ardís.
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Tudo temes em tua prudência: tu, ponderando tudo à sua luz, temes qeu alguma aragem de pecado te bafege a alma, e que, prestando-lhe atenção, como Eva à serpente, venhas a cair em suas malhas. Porém, nenhum laço há aqui: o céu não te engana: não há na cidade de Deus lugar para a mentira.
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Não há aqui monstro algum que te engane em música falaz, que te cegue os olhos d’alma como à primeira mulher. Já o Senhor pôs em ti o seu olhar: do alto da esfera celeste, sua pupila descansa nas pequenezes desta vida. Quanto mais te crês indigna, tanto mais digna te ergues para o céu, e tua fronte brilha, quanto mais se esconde.
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A simplicidade humilde e a humildade simples do teu pensar enamora o Espírito de Deus. Por que te admiras de te fazerem Rainha do céu, se estás sempre a escolher na terra o último lugar? De admirar seria se tivesses o peito entumecido de soberba e se, apesar disso, o Senhor te contemplasse. Abre, portanto, o coração confiante à mensagem celeste: quanto é de ti mais digna, tanto menos deves temê-la.
Glória e predileção
Até agora ouviste de teus louvores o exórdio apenas: falta ainda o cúmulo de tua glória. Grandes os mistérios que ouviste: agora, porém, em meio de tua perplexidade, maiores te dirá o embaixador celeste:
“Não temas, ó Maria: não há por que temer! Despe o rubor que cobre o teu semblante casto! não sou mensageiro de mundanas honras: a poeira desta terra é indigna de Virgem tão excelsa. Venho trazer-te honras que a suma sabedoria do Pai celeste a ti reservou antes da admirável criação dos mundos. Por que coras à voz do ministro de Deus que te enaltece e te abates em ouvir minhas palavras? Toda a côrte do empíreo fulgurante se curvará ao teu conspecto, rendendo-te obsequiosa submissão. Tu, finalmente, achaste a complacência do Pai supremo que te cumulou de graças inefáveis, inefavelmente! Esta graça, nosso primeiro pai perdeu-a com o pecado de morte, e perdida, buscaram-na em vão outrora nossos antepassados. Por ela suspira o céu há tanto tempo, por ela a terra palmilha o seu longo caminho de lágrimas. Achaste, afinal, esta graça, aninhada no coração indevassável do Deus da imensidade. A nenhum de nós, que te levamos a palma, por força da natureza angélica quis escolher a sabedoria eterna: Mas a ti, sobre nós todos, sublimou a graça, para o grande prodígio da redenção”.
A grande mensagem
Eis que teu seio avultará como corola que floriu e o fruto se desprenderá do ramo augusto. Chama-lo-ás com o singular e santo nome de Jesus, e terá novo brazão sua nobreza. Rei será ele de majestade suma e sua glória não terá limites. Será teu Filho o próprio unigênito de Deus e, por esse título, igual ao Pai na divindade. Dar-lhe-á o Onipotente o real trono de Davi, seu pai, depondo em suas mãos as rédeas do universo.
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Ele regerá invicto a casa amplificada de Jacó e suas leis reinarão pelos dias sem fim. Seu poder se estenderá às extremas da terra, às mais remotas praias do oceano infindo, até onde a estrela da manhã abre o caminho ao dia e Vesper lhe fecha o cortejo, até onde os polos celestes movem os dois hemisférios. Lançará os braços imensos do seu poder até às extremidades desconhecidas do universo.
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Legítimo herdeiro do Pai celeste, o Verbo dominará juntamente com ele o oceano dos astros. Sustentará eternamente o cetro como príncipe invicto, guiando os séculos a rolar na eternidade.”

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Beato José de ANCHIETA, S. J. Poema da Virgem. São Paulo: Edições Paulinas, 1959, p.104-112.

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